Greenk Redação
2 de maio de 2017 - 14h17

AVISO: Contém spoilers

 

 

 

É difícil assistir a “Vida” e não pensar em dezenas de filmes semelhantes temática ou visualmente. Trata-se de uma obra original, desvinculada de qualquer franquia ou projeto mais amplo, mas as inspirações e referências saltam aos olhos em vários momentos, como se o filme não recusasse o cânone do gênero. Entre um instante que gera desconfiança quando remete ao imaginário de “Alien, o Oitavo Passageiro” sem muita inspiração e outra que recupera memórias de “O Enigma do Horizonte”, no entanto, o diretor Daniel Espinosa encontra meios de imprimir sua marca no material.

 

 

Como em outros thrillers espaciais, é natural que as distintas condições de gravidade desempenhem um papel central na maneira de filmar, manifestando-se em flutuações da câmera e na coreografia adotada pelos personagens, que se movimentam com certa liberdade apesar de confinados a procedimentos e cenários restritos. Em mais de uma ocasião, o eixo se inverte e acompanhamos os eventos de cabeça para baixo, num recurso que pretende causar imersão e certo desconforto. A preocupação com sensações do tipo, que transferem o espectador para aquele contexto, é um dos trunfos do longa.

 

 
Há outros truques na manga de Espinosa. Em parceria com Seamus McGarvey, fotógrafo de obras como “Godzilla” e “Os Vingadores”, ele usa a computação gráfica a seu favor, limitando as aparições do alienígena no início para valorizar seu impacto em cena posteriormente, em trechos mais agudos. Vale destacar também o contraste entre o realismo na construção do interior da estação espacial e a expressividade de determinadas sequências, como aquela em que o vermelho das luzes de emergência ganha toda a tela para intensificar o drama.

 

 

 

 

Apesar de beber de fontes bem claras, sobretudo na forma de conduzir a narrativa, “Vida” oferece uma porção generosa de momentos distintos. Quando lida com sangue pela primeira vez, por exemplo, o filme parte do gore ao poético em questão de segundos. Os golpes são brutais e fazem franzir a testa, mas a morte parece uma pintura, como se nos forçasse a olhar. Aos moldes da criatura marciana, o cineasta tem mais curiosidade do que medo, e isso se manifesta no produto final.

 

 

No restante do tempo, quando não testemunha os seguidos ataque ou passeia apressadamente pela nave, a câmera segue um esquema simples, mas eficiente, de plano-contraplano. Uma imagem assustadora, por exemplo, ganha novo peso quando alternada com a reação aterrorizada a ela. É o caso da cena em que Rory (Jake Gyllenhaal) e Kat (Olga Dihovichnaya) estão separados por uma porta, apenas um deles protegido — e, logo sabemos, não por muito tempo.

 

 

O estilo consistente não é o único aspecto positivo do longa. De modo inteligente, o roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick (de “Zumbilândia” e “Deadpool”) usa os padrões de ação dos astronautas para criar uma dinâmica própria de videogames. Sua estrutura espalha os personagens pela arena, oferece a cada um deles habilidades específicas e, a partir daí, enfileira desafios com regras particulares, como fases de um jogo de sobrevivência. Essa progressão se beneficia do confinamento, dessa natureza “sem saída” da situação. Graças à direção capaz de armar segmentos marcantes individualmente, é perturbador ver cada colega ficar pelo caminho, cada área da nave deixar de ser uma opção, cada alternativa se apresentar mais difícil.

 

 

 

 

Os problemas aparecem quando o filme decide explorar os efeitos que a vida no espaço tem sobre Miranda (Rebecca Ferguson) e companhia, talvez sua característica mais original, digamos assim. O elenco tem bons nomes, que se esforçam para conferir bagagem ao material, e os tipos escolhidos, organizados como uma família de origens, funções e personalidades variadas, não seguem com tanto rigor as normas do gênero. No entanto, tudo isso fica apenas na superfície, suspenso no ar enquanto a trama se desenrola e o clima de tensão se instaura para retornar no fim, quando já é tarde para se estabelecer qualquer relação mais profunda com qualquer um deles.

 

 

Com muito pouco a dizer sobre seus heróis, o filme se complica no ato final. Até ali, as coisas haviam funcionado seguindo uma dinâmica básica de superação de objetivos — uma versão de terror de “Perdido em Marte” nesse sentido. Contudo, antes de se encaminhar para o desfecho da missão, sem dúvidas seu elemento mais importante, o filme muda de curso e produz seus momentos mais fracos: uma conversa melancólica em que os astronautas refletem sobre a vida e uma virada final desnecessária, que subverte de forma gratuita as ideias apresentadas a princípio.

 

 

O desfecho desastroso surge cheio de pompa, embalado por um tema musical bastante enfático que parece querer enviar o espectador para casa em choque. Mas a aparência de grandeza não é suficiente para sustentar as decisões dos personagens, tomadas com base no diálogo em que um deles recita um livro infantil enquanto a vida como conhecemos acaba lá fora. No fim da linha, nossa sobrevivência depende de personagens com os quais nem mesmo conseguimos nos importar — para “Vida”, esse erro acaba sendo fatal.

 

 

 

 

Fonte: B9

 

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