Greenk Redação
2 de maio de 2017 - 12h29

AVISO: Pode conter spoilers

 

 

 

 

É curioso imaginar como um diretor passa diretamente do cinema independente, com orçamentos e escopos geralmente restritos, ao universo dos blockbusters, comandando grandes estrelas com responsabilidades de bilheteria correspondentes. O fenômeno não é raro. Ao contrário, se mostra cada vez mais comum ver os principais estúdios americanos contratarem cineastas jovens para iniciar novas franquias. Seus contracheques menores e a percepção de que é possível impor um controle rígido sobre profissionais desse perfil explicam a tendência. Os resultados, no entanto, são mistos.

 

 

O caso de Jordan Vogt-Roberts se encaixa na definição. Antes de chegar à função em “Kong: A Ilha da Caveira”, ele havia trabalhado em uma série de produções televisivas (como o seriado “You’re the Worst”) e dirigido apenas uma longa-metragem, “Os Reis do Verão”, cuja principal sequência de ação envolvia três adolescentes e uma cobra. O salto até a coordenação de batalhas com uma dúzia de helicópteros e intensa pós-produção é mesmo gigantesco, mas a aparente inexperiência não o impede de exibir várias de suas qualidades.

 

 

Inserido no recém-criado universo de monstros da Legendary Entertainment, que já contava com “Círculo de Fogo” e “Godzilla”, o novo filme do macaco gigante se mostra pouco preocupado com seus antecessores no cinema. O clássico dos anos 30 e a versão de Peter Jackson lançada em 2005 são lembranças distantes, que se relacionam com o produto atual apenas por alguns dos elementos mais básicos da mitologia. A direção tem outras referências em mente, e o conjunto delas, embora não muito homogêneo, parece buscar uma aproximação despretensiosa com o público.

 

 

 

 

Os cartazes de “Kong” anunciam uma homenagem a “Apocalypse Now” que logo se confirma. Vogt-Roberts toma elementos de seu imaginário como ponto de partida para construir, ao redor deles, uma aventura estilizada. A unidade do batalhão, a travessia pelo rio, o mistério cercando uma figura imponente, determinados episódios espalhados pela trama, a granulação escolhida e o recurso a algumas das imagens mais icônicas do longa de 1979 são exemplos claros dessa ideia.

 

 

Embora seja eficiente nesse processo de reinterpretar aspectos marcantes da obra de Francis Ford Coppola, preenchendo com humor um caminho antes traçado pelo horror, o diretor não consegue reunir mais do que um punhado de boas cenas. O visual cartunesco funciona nas sequências mais movimentadas, especialmente quando a câmera elege acontecimentos específicos e se prende a eles no meio da confusão geral. Os melhores momentos da chegada à ilha, por exemplo, são aqueles em que acompanhamos os efeitos da tempestade no interior das aeronaves e, assim, algum senso de coletividade é alcançado.

 

 

Tratando a guerra como espaço para desenvolver sua caçada ao monstro, o longa dispersa a ação em várias frentes e permite que seus personagens explorem circunstâncias diferentes do embate. Os veteranos, deslocados imediatamente após a Guerra do Vietnã, são responsáveis pelo aspecto mais bruto da missão (o emprego de bombas, lança-chamas, gás e balas), e ajudam a elaborar os segmentos de maior escala, obrigatórios para uma produção desse porte. Os demais acabam assumindo funções temporárias, que felizmente resultam em uma direção mais livre. A cena em que Tom Hiddlestone mata bichos voadores com uma espada em meio à fumaça verde, completamente divorciada do entorno da narrativa, é um bom exemplo de diversão gratuita e sem compromisso.

 

 

 

 

A habilidade de Vogt-Roberts para imprimir um estilo particular em trechos como esse, porém, não garante seu sucesso completo. Por mais que o subtítulo tente sugerir algo diferente, “A Ilha da Caveira” desperdiça o potencial da geografia local, deixando de aproveitar as especificidades de cada parte do terreno. Regiões distintas são apresentadas, visitadas e destruídas (praia, montanhas, vales, selva e rio), mas não têm impacto direto na forma como os acontecimentos se desenvolvem. A sequência no cemitério de animais é um desses casos em que o cenário, que faz um aceno a “O Rei Leão”, se mostra mais interessante do que a ação passada nele.

 

 

Outro fator que contribui para a falta de peso desse tipo de cena é a dificuldade enfrentada pelo time de roteiristas para escrever personagens que existam além da superfície. Certas interações entre eles funcionam, mas devem mais à condução dos diálogos, majoritariamente voltados para a comédia, do que à construção das figuras em cena — o náufrago vivido por John C. Reilly talvez seja a única exceção. Como se estivesse interessado somente em levar um grupo de pessoas até a ilha, o texto se contenta em atribuir uma característica básica a cada uma delas, sem se dedicar a forjar suas personalidades mais adiante.

 

 

 

 

É problemático contar com um elenco tão numeroso quando não há tempo nem paciência sequer para encontrar um modo natural de revelar as histórias de origem dos protagonistas. Ainda que consiga produzir instantes de conexão entre espectador e personagens, incomoda que tudo acabe explicado apenas no momento derradeiro para amarrar as pontas soltas e, entre outras coisas, aproximar o casal principal. A decisão de filmar um dos enfrentamentos mais duros do macaco pelas lentes de Weaver (Brie Larson), por exemplo, é inexplicável sob qualquer aspecto, exceto pelo fato de que, quase à força, serve para unir a jovem e o gigante.

 

 

Quando pensamos em “Kong” como o filme de origem do monstro, no entanto, o balanço se revela positivo. Por mais que o diretor falhe justamente naquilo em que deveria ter sucesso (no mínimo, criar heróis com os quais valha a pena se identificar), sua surpreendente atenção para detalhes diante de criaturas enormes e em contextos complicados é capaz de colocar o longa novamente nos trilhos. Se a equipe de mocinhos deixa a desejar, ao menos a criatura em seu caminho parece pronta para novos desafios.

 

 

 

 

Fonte: B9

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